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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

História da Era Apostólica - Síntese da Cronologia


“Desde já, vejo os críticos consultando textos e combinando versículos para trazerem à tona os erros do nosso tentame singelo. [...] e ao pedantismo dogmático, ou literário, de todos os tempos, recorremos ao próprio Evangelho para repetir que, se a letra mata, o espírito vivifica.”1

HAROLDO DUTRA DIAS

A simplicidade e humildade do Benfeitor espiritual Emmanuel pode levar o estudioso iniciante a crer que haja erros nas informações trazidas pelo romance histórico Paulo e Estêvão. Na época em que essa extraordinária obra veio a lume (1942), é certo que a maioria dos dados históricos, sobretudo aqueles relacionados à cronologia, estavam em discordância com as pesquisas bíblicas publicadas na primeira metade do século XX.

Ainda hoje, enciclopédias, dicionários bíblicos, artigos esparsos, produzidos por autores daquele período ou por pessoas que não atualizaram seus estudos, contêm dados, datas, informes diametralmente opostos ao daquela obra mediúnica. Por outro lado, a mais recente pesquisa acadêmica (1980-2009) parece confirmar cada detalhe deste romance espiritual, como se pode constatar do trabalho de John P.
Meier, E. P. Sanders, W. D. Davies, Craig Evans, Bruce Chilton, James H. Charlesworth, Joseph Fitzmyer, Barth Ehrman, David Flusser, Geza Vermes, Haroldo Hoehner, para citar apenas os mais conhecidos.

Temos abordado nesta coluna, ainda que de forma resumida e simples, as datas mais significativas do primeiro século do Cristianismo, conjugando essa recente pesquisa histórica com as revelações espirituais presentes na obra Paulo e Estêvão, no intuito de fornecer um quadro cronológico desse período, capaz de auxiliar o leitor na leitura e compreensão do Novo Testamento, em especial do livro Atos dos Apóstolos.

Nesse sentido, transcorridos mais de um ano desse esforço, sentimos necessidade de fornecer um resumo dos dados apresentados até o presente momento, na esperança de que essa “tabela cronológica” seja útil a todos que anseiam por uma compreensão mais precisa da “História da Era Apostólica”, com vistas a uma melhor apropriação do conteúdo espiritual da mensagem evangélica.

Naturalmente, não poderemos explicar meticulosamente todas as datas apresentadas, remetendo o leitor aos números anteriores da revista Reformador, onde poderão ser encontrados informes mais detalhados, com a dedução de cada data específica.

Todas essas datas são apresentadas com a menção da estação do ano correspondente, tendo em vista a impossibilidade, na maioria dos casos, de se fixar o dia e o mês exato do evento. Por esta razão, cumpre lembrar que nos países banhados pelo Mar Mediterrâneo o clima é muito semelhante, com verões secos e quentes e invernos moderados e chuvosos.
As estações do ano se dividem em dois grandes blocos: primavera–verão (abril–setembro) e outono inverno (outubro–março).

É importante ressaltar que o romance mediúnico Paulo e Estêvão representa uma espécie de “bastidores”, making-off do livro bíblico Atos dos Apóstolos, razão pela qual é indispensável sua leitura e citação. O fio condutor de toda a história apostólica se encontra em Atos dos Apóstolos e Emmanuel irá seguir esse roteiro de forma rigorosa.

A crucificação de Jesus se deu em abril/maio do ano 33 d.C.,2 ao passo que Pentecostes (Atos, 2) ocorreu cinquenta dias depois daquela data. Ainda nesse ano, Pedro discursou no Templo de Jerusalém (Atos, 3:1; 4:31).

No ano 34 d.C., Pedro fixa residência na cidade de Jerusalém, fundando a “Casa do Caminho”, primeiro núcleo cristão de assistência aos necessitados e divulgação do Evangelho. Por essa época, ocorreu a pitoresca morte de Ananias e Safira (Atos, 4:32; 5:11).

Os primeiros acontecimentos descritos no romance Paulo e Estêvão ocorreram na primavera/verão do ano 34 d.C., ocasião em que Jeziel (Estêvão) é levado cativo para as galeras romanas (outono de 34 d.C.), e acaba aportando doente em Jerusalém, sendo conduzido para a “Casa do Caminho” no inverno de 34/35 d.C., ou seja, final daquele ano e início do outro.

Nesse mesmo período, talvez, Pedro foi preso e discursou no Sinédrio (Atos, 5:12-42), sendo libertado em função da célebre intervenção de Gamaliel.

Na primavera do ano 35 d.C., Estêvão é nomeado para ser um dos sete trabalhadores que cooperariam com os Apóstolos nos trabalhos da igreja nascente (Atos, 6:1-7), sendo preso e apedrejado pouco tempo depois, no verão do ano 35 d.C.3 (Atos, 6:8; 7:60).

Decorridos oito meses da morte do primeiro Mártir, Saulo procura Abigail na pequena propriedade rural situada na estrada de Jope, surpreendendo-a em grave estado de saúde. Esse dramático encontro entre Saulo e Abigail só pode ter ocorrido no início do ano 36 d.C.4

Adentrando em Damasco, acometido de temporária cegueira, após a gloriosa visão do Cristo, o jovem Saulo sente que “grossos pingos de chuva caíam, aqui e ali, sobre a poeira ardente das ruas”.5 A primavera tem início no mês de abril, quando cessam as chuvas.

Nesse caso, é plausível postular, com base nos informes de Emmanuel, que a conversão de Saulo se deu antes da primavera, ou seja, no primeiro trimestre do ano 36 d.C.6

Paulo pregando em Atenas (desenho animado para a Capela Sistina)

Após breve estada em Damasco, Paulo se retira para o deserto (Atos, 9:8-25; Gálatas, 1:15-18). O tempo de permanência do antigo doutor da lei no deserto de Palmira foi estabelecido de forma precisa: três anos (Gálatas, 1:17-18). Emmanuel confirma e esclarece detalhes sobre esse período. Durante sua estada no Oásis de Dan, Paulo foi surpreendido com a notícia da morte do seu grande orientador, Gamaliel.7

Ao retornar do Oásis de Dan, no deserto da Arábia, Paulo passa por Damasco (Gálatas, 1:17), de onde se retira às pressas, escondido em um cesto, tendo em vista a ordem de prisão contra ele expedida (Atos, 9:19-25).

A chegada de Paulo em Jerusalém (Atos, 9:26-29; Gálatas, 1:18--20) verificou-se num dia quente de verão, três anos após sua conversão em Damasco, ou seja, no verão do ano 39 d.C. Sua permanência na Judeia foi extremamente curta, pois se viu obrigado a fugir da perseguição dos membros da Sinagoga dos cilícios, após ter feito ardorosa pregação naquele local.8

Aconselhado por Simão Pedro, o tecelão fixou residência em sua cidade natal, Tarso (Atos, 9:30; Gálatas, 1:21), pelo período de três anos. Essas informações podem ser encontradas no romance Paulo e Estêvão:

[...] Saulo de Tarso, agora resistente como um beduíno, depois de agradecer a generosidade do benfeitor e despedir-se dos amigos com lágrimas nos olhos, tomou novamente o rumo de Damasco, radicalmente transformado pelas meditações de três anos consecutivos,passados no deserto.9 (Grifo nosso.)
Assim, durante três anos, o solitário tecelão das vizinhanças do Tauro exemplificou a humildade e o trabalho, esperando devotadamente que Jesus o convocasse ao testemunho.10 (Grifo nosso.)

Desse modo, a permanência de Paulo em Tarso se estendeu do verão do ano 39 d.C. ao verão do ano 42 d.C., “até que Barnabé o convidasse para os trabalhos promissores na Igreja de Antioquia”.11

Em resumo, da data de sua conversão em Damasco até sua chegada em Antioquia, transcorreram seis longos anos (primeiro trimestre do ano 36 d.C. até o verão do ano 42 d.C.), nos quais o Apóstolo dos Gentios consolidou as profundas transformações que o encontro com Jesus lhe provocou.

Fonte: Reformador  Ano 128 • Nº 2. 170 • Janeiro 2010

1XAVIER, Francisco C. Paulo e  Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. d. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Breve notícia, p. 10.
2Consultar o artigo intitulado “A crucificação de Jesus”, publicado na revista Reformador, ano 126, n. 2.154, setembro de 2008, p. 33(351)-35(353).
3Consultar o artigo intitulado “O primeiro Mártir”, publicado na revista Reformador, ano 127, n. 2.158, janeiro de 2009, p. 29(27)-31(29).
4Consultar o artigo intitulado “A conversão de Saulo”, publicado na revista Reformador, ano 127, n. 2.160, março de 2009, p. 36(114)-37(115).
5XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. P. 1, cap. 10, p. 250.
6Consultar o artigo intitulado “A conversão de Saulo”, publicado na revista Reformador, ano 127, n. 2.160, março de 2009, p. 36(114)-37(115)
7Consultar o artigo intitulado. “A preparação no deserto”, publicado a revista Reformador, ano 127, n. 2.162, maio de 2009, p. 34(192)-36(194).
8Consultar o artigo intitulado “O regresso a Tarso”, publicado na revista Reformador, ano 127,n.2.164,julho de 2009,p.34(272)-35(273).
9XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 39. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003. P. 2, cap. 2, p. 320.
10Idem, ibidem. p. 385. 11Consultar o artigo intitulado “O regresso a Tarso”, publicado na revista Reformador, ano 127, n. 2.164, julho de 2009, p. 34(272)-35(273).


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quinta-feira, 23 de junho de 2016

História da Era Apostólica - Novas perguntas


“A diversidade de imagens de Jesus levanta a suspeita de que os retratos de Jesus sejam na verdade auto-retratos de seus autores.”1

HAROLDO DUTRA DIAS

O reinado de Guilherme II (1859-1941) assistiu, na Alemanha, ao florescimento do liberalismo teológico e da pesquisa “clássica” sobre a história do Cristianismo, cuja característica marcante foi a exploração histórico-crítica das fontes literárias, visando a reconstrução da personalidade e da vida de Jesus, ao menos na concepção dos seus expositores mais destacados.

Inaugurava-se a Terceira Fase da pesquisa histórica do Cristianismo sob a influência de desmedido otimismo. F. Baur defendia a primazia dos sinóticos sobre o Evangelho de João. H. Holzmann propunha a teoria das duas fontes,
segundo a qual Marcos e “Q”2 representavam as mais antigas e confiáveis fontes para a reconstrução do quadro biográfico do Cristo.

O colapso do liberalismo teológico, porém, veio mais cedo do que se imaginava, em virtude de três fatores: a constatação do caráter fragmentário dos evangelhos, que impediria qualquer esforço de extrair um “desenvolvimento” da personalidade de Jesus a partir da seqüência narrativa do evangelho de Marcos; o caráter tendencioso das fontes antigas, visto que o evangelista privilegiava determinada mensagem, ainda que em detrimento de uma suposta “precisão histórica”; o elemento projetivo das biografias sobre Jesus, uma vez que os biógrafos retratavam a personalidade do Mestre ao sabor das suas preferências e conveniências pessoais.

O ocaso da Teologia Liberal contribuiu para o surgimento da chamada “Teologia Dialética”, herdeira da filosofia existencialista de Heidegger, segundo a qual “o ser humano conquista sua ‘autenticidade’ apenas na decisão, a qual não pode ser assegurada mediante argumentos objetiváveis (como o conhecimento histórico).
Para um existencialismo cristão a decisão é a resposta ao chamado de Deus no querigma3 da cruz e da ressurreição de Cristo, que  o ser humano compreende por meio de um morrer e viver existencial em Cristo”.4

O trabalho de R. Bultmann (1884-1976), o mais destacado exegeta da Teologia Dialética, reflete o ceticismo histórico que tomou conta dos pesquisadores, após o colapso da pesquisa tradicional. Na sua concepção, o Cristianismo começa apenas com a Páscoa, razão pela qual conclui que o ensino de Jesus não é relevante para uma Teologia Cristã. Nessa abordagem, o Jesus histórico não é objeto nem fundamento da pregação neotestamentária, que se baseia exclusivamente no “Cristo” percebido e divulgado após o Pentecostes (Cristo Querigmático).5

A Quarta Fase da pesquisa, desenvolvida no círculo dos discípulos de Bultmann, propõe uma “nova pergunta” pelo Jesus histórico, buscando o elo entre a pregação
pós-pascal dos apóstolos e a pregação do próprio Jesus. Enquanto a “antiga pergunta” (Teologia Liberal) contrapunha Jesus à pregação da Igreja, a “nova pergunta” procura harmonizar esses dois elementos.

No lugar da reconstrução crítico-literária das fontes, a metodologia da Teologia Dialética se concentra na comparação entre a história das religiões e a história da tradição evangélica.Nesse contexto, assume papel relevante o intitulado “critério da diferença”, segundo o qual, para se reconstruir um mínimo de tradição autêntica sobre Jesus, torna-se necessário excluir tudo que possa ser derivado tanto do Judaísmo quanto da pregação apostólica, nabusca da voz “original” do Cristo.

Na opinião dos estudiosos do tema:

[...] com o fim da escola bultmaniana ficaram cada vez mais evidentes as arbitrariedades da “nova pergunta” pelo Jesus histórico. Ela era basicamente determinada pelo interesse teológico de fundamentar a identidade cristã ao distingui-la do judaísmo e de garanti-la ao separá-la de heresias cristãs primitivas (como a gnose e o entusiasmo carismático).Por isso ela deu preferência a fontes ortodoxas e canônicas.6

Assim, o esforço para minimizar os contornos judaicos da mensagem cristã constitui o aspecto problemático dessa abordagem, já que favoreceu o anti-semitismo, desfigurando o pano de fundo histórico dos evangelhos para torná-lo mais palatável aos existencialistas.

A Quinta Fase da pesquisa, também conhecida como terceira busca (Third Quest), que se desenvolveu, sobretudo, nos países de fala inglesa, procura superar essas
idiossincrasias. Nela, o interesse histórico-social substitui o interesse teológico, ao passo que a inserção de Jesus no Judaísmo substituiu o interesse de separá-lo das
suas bases históricas e sociais. Há, também, maior abertura a fontes não-canônicas (em parte heréticas), tais como os apócrifos.

Em suma, munidos dos novos instrumentos da pesquisa hodierna, tais como história antiga, crítica literária, crítica textual, filologia, papirologia, arqueologia, geografia, religião comparada, os atuais pesquisadores tentam reconstruir o ambiente sociocultural de Jesus, de modo a experimentar o efeito que as palavras do Mestre produziram nos ouvintes da sua época.

Nesse esforço, procura-se evitar juízos preconcebidos, premissas rígidas, preconceitos étnicos, deixando que a mensagem se estabeleça ainda que contrariamente às expectativas dos crentes atuais.
No entanto, ao montar o quebra-cabeça da história do Cristianismo Primitivo com as escassas peças disponíveis, nem sempre é possível ao pesquisador humano dispensar certa dose de imaginação.

Na avaliação de Gerd Theisen:

[...] todas as descrições de Jesus contêm um elemento construtivo que vai além dos dados contidos nas fontes. A imaginação histórica cria com suas hipóteses uma “aura de ficcionalidade” em torno da figura de Jesus, assim como a imaginação religiosa do Cristianismo primitivo. Pois tanto aqui como lá atua uma grande força imaginativa, acesa pela mesma figura histórica. Em ambos os casos, ela opera de forma aberta: símbolos religiosos, imagens e mitos permitem sempre nova interpretação, hipóteses históricas permitem sempre nova correção.Neste processo, nem a construção religiosa, nem a reconstrução histórica da história de Jesus procede com arbitrariedade, mas com base em convicções axiomáticas. A imaginação religiosa do cristianismo primitivo é conduzida pela sólida crença de que por meio de Jesus é possível fazer contato com Deus, a realidade última. A imaginação histórica é determinada pelas convicções básicas da consciência histórica: todas as fontes se originam de seres humanos falíveis e devem, portanto, ser submetidas à crítica histórica.7

O espírita-cristão, abençoado pela revelação dos Espíritos superiores, especialmente na produção mediúnica de Francisco Cândido Xavier, conta com um elemento precioso, muitas vezes negligenciado. Os romances do Benfeitor Emmanuel constituem detalhado processo de reconstrução dos três primeiros séculos do Cristianismo.

Nesses romances, alguns dados da pesquisa histórica puramente humana são confirmados, todavia, muitas retificações são feitas, de forma sutil. Exige-se do leitor exame cuidadoso, sob pena de serem divulgadas informações espiritualmente incorretas, apenas porque determinado pesquisador encarnado as defenda em suas obras.

Nesse sentido, é valiosa a advertência de Emmanuel:

[...] Hipóteses incontáveis foram aventadas, mas os sábios materialistas, no estudo das idéias religiosas, não puderam sentir que a intuição está acima da razão e, ainda uma vez, falharam, em sua maioria, na exposição dos princípios e na apresentação das grandes figuras do Cristianismo.

[...] É que, portas a dentro do coração, só a essência deve prevalecer para as almas e, em se tratando das conquistas sublimadas da fé, a intuição tem de marchar à frente da razão, preludiando generosos e definitivos conhecimentos.8

Vê-se que a proposta da Espiritualidade superior reside na conjugação da Razão e da Fé, razão pela qual, antes de iniciarmos nosso estudo da “História Apostólica”, à
luz da obra Paulo e Estêvão, decidimos fazer um histórico da pesquisa acadêmica, a fim de evitar, ou pelo menos conhecer, as extravagâncias e equívocos de seus expositores.

Referência:

1THEISEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus histórico. São Paulo: Loyola, 2002. p. 31.
2Termo alemão que significa “fonte”. Schleiermacher foi o primeiro a propor a existência de uma coletânea de declarações de Jesus como uma das fontes dos evangelhos. Alguns críticos acreditam que Papias faz referência a esse documento quando
3No grego, essa palavra (querigma) significa “a coisa pregada”, a pregação dos primeiros cristãos, ou melhor, o conjunto de crenças básicas por eles defendidas e
divulgadas.  menciona a existência das “Logias” de Levi. Todavia, cumpre salientar que não há comprovação histórica da existência do referido documento. O trabalho dos estudiosos tem sido selecionar ditos de Jesus, nos evangelhos de Mateus e Lucas, ausentes no evangelho de Marcos, propondo que essa seleção aponte para a suposta fonte “Q”. Em resumo, estamos diante de uma hipótese que deve ser analisada com cautela.
4THEISEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus histórico. São Paulo: Loyola, 2002. p. 31.
5O Cristo retratado na pregação dos apóstolos e dos primeiros cristãos do Século I.
6THEISEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus histórico. São Paulo: Loyola, 2002. p. 28.
7THEISEN, Gerd; MERZ,Annette. O Jesus histórico. São Paulo: Loyola, 2002. p. 31.
8XAVIER, Francisco Cândido. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 36. ed.
Rio de Janeiro: FEB, 2007. Cap. XIV, item “A redação dos textos definitivos”, p. 124-125.

Fonte: Reformador Ano 126 • Nº 2. 146 • Janeiro  2008


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terça-feira, 20 de agosto de 2013

ESTUDOS DA MEDIUNIDADE ANTES DA CODIFICAÇÃO KARDEQUIANA

Djalma Argollo

1. A SITUAÇÃO DA MEDIUNIDADE ANTES DE ALLAN KARDEC

O Anarquismo mediúnico

Antes de 18 de abril de 1857 não podemos falar de Espiritismo. Pelo simples fato de somente nessa data o termo, com a sua atual acepção, ter sido criado. Podemos, sim, falar sobre o fenômeno mediúnico, pois este é independente e anterior ao Espiritismo.

Observando desde a mais remota antiguidade, não encontramos a mediunidade sistematizada e estudada como o fez Kardec. O que existia era a explosão do fenômeno e sua utilização, de forma espontânea e anárquica. Muitas vezes, como acontece ainda em larga escala nos dias correntes, era o desequilíbrio mediúnico se patenteando nos diversos graus da obsessão. Quem sabe, se não foi tal fato que levou ao costume, encontrado entre vários povos e épocas, de se respeitar o louco como um ser santificado?

O sobrenatural e o ritualismo em torno da mediunidade

Sem ser estudada amplamente, portanto sem uma sistematização racional, a mediunidade viu surgir, em torno de sua atividade,toda uma estrutura de concepções sobrenaturais absurdas. Pelo desconhecimento das leis que acionam o fenômeno, os criaram inúmeros rituais para fazê-lo acontecer, utilizando nestes, toda sorte de excitantes sonoros e químicos, como o álcool e os alucinógenos. Hoje ainda persistem estes rituais, tanto entre os povos civilizados como os primitivos.

2. SURGIMENTO DA MEDIUNIDADE E SUA INFLUENCIA NA HISTÓRIA

O enterro dos mortos

Num ponto todos os antropólogos, estão de acordo: o enterro dos mortos marca a existência, entre os seus praticantes, de uma idéia de continuidade da vida após o túmulo. Isto aconteceu durante o último meio milhão de anos, quando o homem do Neanderthal começou a enterrar seus mortos com evidentes sinais de ritualismo, nos quais são usados flores e animais, o que demonstra também o surgimento da Zoolatria.

Segundo alguns antropólogos a idéia da imortalidade teria surgido dos sonhos que o homem primitivo tinha com os seus companheiros já mortos; do sopro do vento por entre os galhos das árvores, que os faziam pensar em lamentos fantasmagóricos; de ver seus rostos refletidos nas águas,etc.

O que não se leva em conta é que o homem do Neanderthal, como os seus contemporâneos, não podia ser dado a grandes abstrações. Ele era tocado pela experiência concreta. A idéia de continuação da vida além da sepultura é por demais abstrata, para ser inferida dos fatos citados. Somente uma experiência fortemente concreta poderia fazer surgir a idéia da imortalidade pessoal.

Ernesto Bozzano, o extraordinário espírita italiano, diz-nos que a crença imortalista nasceu da experiência mediúnica. Durante o período do pleistoceno médio, quando as glaciações se abateram sobre os continentes, o homem do N. foi obrigado a viver em cavernas, para se abrigar do frio. No interior delas, combalido pela falta de alimentos e pelas doenças que deviam grassar na promiscuidade reinante, houve a culminação de uma série de fatos mediúnicos que de algum tempo vinham acontecendo no seio dos inúmeros ramos neandertalenses: a ectoplasmia e demais formas de comunicação mediúnica. Assim, diz Bozzano, os sonhos premonitórios, as visões de Espíritos, a audição da voz dos mortos, inclusive nos fenômenos de voz direta - e a materialização de Espíritos, foram fatos concretos, que levaram o homem primitivo à crença na continuação da vida após a morte.

Diretamente dos médiuns neandertalenses surgiram os feiticeiros, ancestrais dos sacerdotes de todas as religiões.

A invocação dos mortos

Durante toda a antiguidade, numa herança direta dos períodos pré-históricos, encontramos a evocação dos mortos como um fato corriqueiro no seio dos povos. Existia, também, todo um ritualismo voltado para o aplacamento e conquista da simpatia dos Espíritos dos mortos. Entre vários povos, os Espíritos dos ancestrais eram cultuados em altares domésticos como divindades menores.

Baseado no trato com os mortos ou tendo este fato como revelação maior, surgiram os " famosos " mistérios da antiguidade.

A própria religião hebraica, da qual nossas crenças derivam, se baseou amplamente na mediunidade dos profetas, chegando a existir, conforme nos informa o Livro de Samuel, uma escola de profetas, onde os médiuns aprendiam os segredos da sua atividade. Os profetas eram usados pelo povo para consultas semelhantes às que se fazem hoje a cartomantes, videntes, etc. , pelas quais recebiam pagamento, daí a perseguição sistemática aos que não fossem da classe.

Os gregos usaram muito a mediunidade profética exacerbada por fatores químicos, em Delfos.

Com o surgimento do Cristianismo, a mediunidade foi amplamente usada pelos seus profitentes. O que caracterizava o trato mediúnico na comunidade cristã das origens era a absoluta ignorância do fenômeno e suas leis.

As reuniões eram, muitas vezes, um verdadeiro pandemônio, semelhantes as dos pentecostais e da corrente carismática do Catolicismo atual, inclusive, inúmeras " heresias" surgiram em tornos dos médiuns e das revelações dos seus guias, então denominados " Espírito Santo", sendo um dos fatores para as proibições conciliares a respeito do uso da mediunidade.

Durante o obscurantismo da Idade Média, vários médiuns foram queimados nas fogueiras, ou morreram sob torturas brutais, nas prisões oficiais, por injunções do Santo Ofício, enquanto a mediunidade resplandecia no seio da comunidade de padres e freiras, produzindo notáveis demonstrações da assistência constante do mundo espiritual.

Na idade moderna o trato com os Espíritos produziu médiuns como Swedenborg, Andrew Jackson Davis, Campbell e MacDonald e os fenômenos na congregação de Edward Irving. Também podemos falar nos célebres possessos, que produziam fenômenos diversos e impressionantes.

3. REVIVESCÊNCIA MEDIÚNICA

Hydesville e os fenômenos mediúnicos

As irmãs Fox foram o ponto de partida de uma ofensiva dos Espíritos para chamar a atenção geral para a problemática da imortalidade. O Espírito Charles Rosma foi o pioneiro deste trabalho, e Isaac Post pode ser considerado uma antecipação de Kardec, já que teve o honroso privilégio de ter recebido, na nova idade do mediunismo, a primeira comunicação longa e coerente, de um Espírito, por via tiptológica. Da mesma forma, a família Koons, contemporânea dos Fox, foi a precursora do mediunismo cientificamente conduzido, graças às indicações dos Espíritos, e o seu " Condensador Ectoplásmico, que nunca mais foi reproduzido.

Durante o período imediatamente antes de Kardec, a mediunidade floresceu de maneira extraordinária. Médiuns de ectoplasmia surgiram e sofreram, mas foram as humildes mesas girantes que, impulsionadas pelos Espíritos, fizeram um trabalho extraordinário de divulgação da mediunidade. Foi graças a elas que Madame de Girardin conseguiu atrair a atenção de pessoas notáveis como o escritor e poeta Victor Hugo. Também foram as mesas que iniciaram Allan Kardec, dando o primeiro impulso para a sua vocação missionária.

Finalmente, não podemos deixar de lembrar que aqui no Brasil, mais especificamente em Mata de S. João, no interior da Bahia, antes das irmãs Fox, a policia foi acionada para fechar uma casa onde pessoas se reuniam para falar com os mortos.

Conclusão

Em rápidas pinceladas, procuramos mostrar que a comunicação com os mortos tem sido constante na história da Humanidade. Tal atividade, entretanto, sempre se desenvolveu de maneira anárquica, já que havia uma completa ignorância das leis que regem a mediunidade. Nem os famosos iniciados sabiam muito a respeito do assunto. Somente após o surgimento de " O Livro dos Médiuns", de A. Kardec, a mediunidade passou a ser usada de forma coerente e lógica, para permitir um contato profundo e proveitoso com o Mundo Espiritual.

Revista "Presença Espírita", jan. /fev. de 1986.

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