sexta-feira, 5 de outubro de 2012

ILUSTRES PIONEIROS MARQUÊS DE PUYSÉGUR E O SÁBIO DELEUZE.


REVISTA ESPÍRITA 1858 » MARÇO » MAGNETISMO E ESPIRITISMO

Quando apareceram os primeiros fenômenos espíritas, algumas pessoas pensaram que essa descoberta, se é que se pode usar esta palavra, iria desferir um golpe de morte no magnetismo, e que aconteceria como ocorre nas invenções: a mais aperfeiçoada determina o esquecimento de sua predecessora. Tal erro não tardou a se dissipar e prontamente se reconheceu o parentesco próximo das duas Ciências. Com efeito, baseando-se ambas na existência e na manifestação da alma, longe de se combaterem, podem e devem prestar-se mútuo apoio, pois elas se completam e se explicam mutuamente. Entretanto, seus respectivos adeptos discordam nalguns pontos: certos magnetistas[1] ainda não admitem a existência ou, pelo menos, a manifestação dos Espíritos. Eles pensam que podem tudo explicar só pela ação do fluido magnético, opinião que nos limitamos a constatar, reservando-nos para discuti-la mais tarde. Nós mesmos a partilhávamos a princípio, mas, como tantos outros, tivemos que nos render à evidência dos fatos.

Ao contrário, os adeptos do Espiritismo são todos concordes com o magnetismo. Todos admitem sua ação e reconhecem nos fenômenos sonambúlicos uma manifestação da alma. Esta oposição, aliás, se enfraquece dia a dia, e é fácil prever que não está longe o dia em que cessará qualquer distinção. Tal divergência de opiniões nada tem de surpreendente. No começo de uma ciência ainda tão nova, é muito fácil que cada um, olhando as coisas de seu ponto de vista, dela forme uma ideia diferente. As ciências mais positivas tiveram sempre, e têm ainda, suas escolas, que sustentam ardorosamente teorias contrárias. Os cientistas têm levantado escola contra escola, bandeira contra bandeira e, muitas vezes, para sua dignidade, as polêmicas se tornaram irritantes e agressivas para o amor próprio ofendido e ultrapassaram os limites de uma sábia discussão. Esperemos que os sectários do magnetismo e do Espiritismo, melhor inspirados, não deem ao mundo o escândalo de discussões muito pouco edificantes e sempre fatais à propagação da verdade, seja qual for o lado em que ela esteja.

Podemos ter nossa opinião, sustentá-la e discuti-la, mas o meio de nos esclarecermos não é nos estraçalhando, processo pouco digno de homens sérios e que se torna ignóbil desde que entre em jogo o interesse pessoal.

O magnetismo preparou o caminho do Espiritismo, e os rápidos progressos desta última doutrina são incontestavelmente devidos à vulgarização das ideias sobre a primeira. Dos fenômenos magnéticos, do sonambulismo e do êxtase às manifestações espíritas há apenas um passo. Sua conexão é tal que, por assim dizer, é impossível falar de um sem falar do outro. Se tivermos que ficar fora da Ciência do magnetismo, nosso quadro ficará incompleto e poderemos ser comparados a um professor de Física que se abstivesse de falar da luz. Contudo, como o magnetismo já possui entre nós órgãos especiais justamente acreditados, seria supérfluo insistirmos sobre um assunto tratado com superioridade de talento e de experiência. A ele não nos referiremos, pois, senão acessoriamente, mas de maneira suficiente para mostrar as relações íntimas das duas ciências que, na verdade, não passam de uma.

Devíamos aos nossos leitores esta profissão de fé, que terminamos com uma justa homenagem aos homens de convicção que enfrentando o ridículo, o sarcasmo e os dissabores, dedicaram-se corajosamente à defesa de uma causa tão humanitária.

Seja qual for a opinião dos contemporâneos sobre o seu proveito pessoal, opinião que é sempre mais ou menos o reflexo das paixões vivazes, a posteridade far-lhes-á justiça: ela colocará os nomes do Barão Du Potet, diretor do Journal du Magnétism; do Sr. Millet, diretor da Union Magnétique, ao lado de seus ilustres pioneiros, o Marquês de Puységur e o sábio Deleuze. Graças aos seus esforços perseverantes, o magnetismo, popularizado, fincou pé na Ciência oficial, onde já se fala dele aos cochichos. Este vocábulo passou à linguagem comum: já não afugenta e, quando alguém se diz magnetizador, já não riem mais na sua cara.
  
[1] Magnetizador é o que pratica o magnetismo. Magnetista é aquele que lhe adota os princípios. Pode-se, pois, ser magnetista sem ser magnetizador, mas não se pode ser magnetizador sem ser magnetista.

Revista Espírita 1858 » Março » Magnetismo E Espiritismo


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O PERISPÍRITO E SUAS MODELAÇÕES


Como será o tecido sutil da espiritual roupagem que o homem envergará, sem o corpo de carne, além da morte?

Tão arrojada é a tentativa de transmitir informes sobre a questão aos companheiros encarnados, quão difícil se faria esclarecer à lagarta com respeito ao que será ela depois de vencer a inércia da crisálida.

Colado ao chão ou à folhagem, arrastando-se, pesadamente, o inseto não desconfia que transporta consigo os germes das próprias asas.
O perispírito é, ainda, corpo organizado que, representando o molde fundamental da existência para o homem, subsiste, além do sepulcro, demorando-se na região que lhe é própria, de conformidade com o seu peso específico.

Formado por substâncias químicas que transcendem a série estequiogenética conhecida até agora pela ciência terrena, é aparelhagem de matéria rarefeita, alterando-se, de acordo com o padrão vibratório do campo interno.
Organismo delicado, com extremo poder plástico, modifica-se sob o comando do pensamento.

É necessário, porém, acentuar que o poder apenas existe onde prevaleçam a agilidade e a habilitação que só a experiência consegue conferir.
Nas mentes primitivas, ignorantes e ociosas, semelhante vestimenta se caracteriza pela feição pastosa, verdadeira continuação do corpo físico, ainda animalizado ou enfermiço.
O progresso mental é o grande doador de renovação ao equipamento do espírito em qualquer plano de evolução.
Note-se, contudo, que não nos reportamos aqui ao aperfeiçoamento interior.

O crescimento intelectual, com intensa capacidade de ação, pode pertencer a inteligências perversas.
Daí a razão de encontrarmos, em grande número, compactas falanges de entidades libertas dos laços fisiológicos, operando nos círculos da perturbação e da crueldade, com admiráveis recursos de modificação nos aspectos em que se exprimem.
Não possuem meios para a ascese imediata, mas dispõem de elementos para dominar no ambiente em que se equilibram.
Não adquiriram, ainda, a verticalidade do Amor que se eleva aos santuários divinos, na conquista da própria sublimação, mas já se iniciaram na horizontalidade da Ciência com que influenciam aqueles que, de algum modo, ainda lhes partilham a posição espiritual.

Os “anjos caídos” não passam de grandes gênios intelectualizados com estreita capacidade de sentir.
Apaixonados, guardam a faculdade de alterar a expressão que lhes é própria, fascinando e vampirizando nos reinos inferiores da natureza.
Entretanto, nada foge à transformação e tudo se ajusta, dentro do Universo, para o geral aproveitamento da vida.

A ignorância dormente é acordada e aguilhoada pela ignorância desperta.

A bondade incipiente é estimulada pela bondade maior.

O perispírito, quanto à forma somática, obedece a leis de gravidade, no plano a que se afina.

Nossos impulsos, emoções, paixões e virtudes nele se expressam fielmente.

Por isso mesmo, durante séculos e séculos nos demoraremos nas esferas da luta carnal ou nas regiões que lhes são fronteiriças, purificando a nossa indumentária e embelezando-a, a fim de preparar, segundo o ensinamento de Jesus, a nossa veste nupcial para o banquete do serviço divino.

Emmanuel
In “Roteiro” - Psicografia de Francisco Cândido Xavier

BIOGRAFIA - O SÁBIO FRANÇOIS DELEUZE (1753 -1835)

Deleuze foi discípulo direto de Mésmer e, juntamente com o Marquês de Puységur e seus sucessores deu grande contribuição a que fosse o Magnetismo reputado como ciência e visto com o respeito que se deve às grandes coisas. Nascido em março de 1753 em Sisterom, Baixa Alpes, Joseph Philippe 

François Deleuze, bibliotecário do Museu de História Natural, teve seu interesse voltado para o Magnetismo em 1785. Até então não cria nas histórias maravilhosas que narravam a respeito do magnetismo, achando mesmo que eram loucos aqueles que partilhavam do seu interesse.
Tomando conhecimento das experiências realizadas por Mésmer, resolveu procurá-lo. 

Admitido à corrente, viu o doente adormecer após alguns minutos tendo ele mesmo adormecido ao cabo de 15 minutos, um sono agitado ao ponto de perturbar a corrente. No dia seguinte, tendo-se mantido em vigília, pôde acompanhar todo o trabalho de Mésmer e solicitar instruções a respeito do magnetismo (Magnetismo Espiritual, Michaelus) .
Escreveu diversas obras importantes no esclarecimento e difusão da ciência magnética. Entre eles, publicou em 1813, “Histoire Critique du Magnétisme Animal”. Diz Ernest Bersot: 

“Era ótimo, para uma doutrina tão mal afamada, encontrar um defensor honorável, sábio, judicioso, moderado em suas opiniões e na expressão dessas opiniões, um desses patronos que dão aos tímidos a coragem de confessar sua crença”.
Sua segunda obra, “Instruction Pratique sur Le Magnétisme Animal” era um manual prático para os magnetizadores, baseado nas suas intensas pesquisas e experiências.

O Dr. Deleuze conhecia a ligação dos sonâmbulos com os Espíritos, apesar de, no início, mostrar-se relutante. Sobre isso manteve célebre contato com o Dr. G. P. Billot durante os anos de 1829 a 1833. As correspondências entre os dois originaram o livro “Correspondence Upon Vital Magnetism”, publicado em 1839 pelo Dr. Billot.
Assim se expressou Deleuze: “Não vejo razão para negar a possibilidade da aparição de pessoas que, tendo deixado esta vida, ocupam-se daqueles que aqui amaram e aconselhas. Acabo de ter disto um exemplo”.

“Deleuze tornou-se um grande magnetizador e, pela sua prudência, critério e operosidade, muito fez pela causa do magnetismo, em cujo fenômeno reconheceu não só um efeito físico, mas também espiritual”. (Michaelus)

ttp://tdmmagnetismobatuira.blogspot.com.br/se


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PUYSÉGUR E O HIPNOTISMO



Hernâni Guimarães Andrade

Revista de Espiritismo nr. 29 - Outubro/Dezembro 1995

A descoberta do «sono magnético» efectuada por Armand Marie Jacques Chastenet de Puységur teve consequências extraordinárias. Uma vez difundida, a hipnose permitiu que se obtivessem curas impressionantes. Mas o mais extraordinário uso da hipnose foi feito pelo cirurgião escocês James Esdaile (1808-1859), o qual através do emprego do hipnotismo fez, com total êxito, mais de 3 mil intervenções cirúrgicas – cerca de 300 delas de profundidade e gravidade consideráveis – sem o emprego de anestesia química e da assepsia.

«Por que a proximidade do corpo humano, que devolve o brilho a uma pérola e renova a radiante força vital, não há-de ser capaz de desenvolver em torno de si uma aura de calor ou de luz que actue sobre outros nervos como um excitante ou um sedativo? Por que não se podem produzir, neste corpo e alma, secretas correntes e refluxos e, de indivíduo a indivíduo, atracções e repulsões, simpatias e antipatias? Quem arriscará hoje, nesta esfera, um categórico sim ou um ousado não?».*

A DESCOBERTA DO HIPNOTISMO
Depois de abandonar Paris em 1785 e mesmo após sua morte, Mesmer continuou a influir no mundo ocidental, por meio de suas ideias. Os seus inúmeros discípulos e admiradores continuaram a sua obra. É possível que Mesmer não houvesse atinado exactamente com a natureza daquilo que ele denominava de magnetismo animal. Entretanto as suas teorias e os factos que rodearam a sua obra tiveram uma força impressionante. Perduram ainda hoje e, vez ou outra, vê-se reactivar o mesmerismo, sob a forma de um movimento ou de uma doutrina nova.

Discípulo fiel de Mesmer, o marquês Armand Jacques Chastenet de Puységur (1751-1825) foi, na França, um dos seus mais ilustres seguidores. A ele se atribui a descoberta do hipnotismo.

Uma das características do método terapêutico de Mesmer era a provocação das crises, seguidas de convulsões e de outras manifestações histéricas. Na maioria das vezes o doente debatia-se, agitava-se violentamente, parecia, finalmente, desfalecer e entrar em calma, tendo os seus sintomas aliviados. Junto às tinas (baquet), providenciava-se uma sala acolchoada guarnecida de almofadões, para onde eram transportados os pacientes em estado convulsivo. Ali, eles estrebuchavam à vontade, sem o perigo de se magoarem.

Puységur era um marquês, um homem abastado e filantropo. Abraçara as ideias de Mesmer por diletantismo e por se ter apaixonado pelo magnetismo animal. Assim, enquanto Mesmer, em Paris, atendia às elites parisienses, ociosas e ávidas de novidades, o marquês de Puységur, em Buzancy, acudia gratuitamente à pobreza. Uma multidão procurava o marquês, o qual se esforçava por medicar seus clientes rigorosamente de acordo com as prescrições do seu mestre.

Certa ocasião, Puységur foi procurado para socorrer um jovem pastor, de 18 anos, chamado Victor Race. Ele estava enfermo, sofria de dores nas costas, respirava com dificuldade e necessitava de ser tratado pelo marquês. Este aplicou-lhe os passes magnéticos, como era da praxe. Qual não foi a surpresa de Puységur quando, em lugar das reacções costumeiras, espasmos, convulsões, etc., o paciente mergulhou tranquilamente em sono profundo! Puységur tentou despertar o pastorzinho, sacudindo-o. Mas debalde! O jovem continuou a dormir profundamente. O marquês ordena-lhe, então, que se levante. Surpresa maior, o rapaz ergue-se dormindo e, de olhos fechados, perambula pelo quarto como se estivesse acordado e de olhos abertos. Comportava-se como um sonâmbulo comum que, à noite, se afasta da cama e, dormindo, caminha por quaisquer lugares, beirais, telhado, terraços de difícil acesso, etc., tendo os olhos cerrados.

Puységur, interessado na sua nova descoberta, procurou investigar melhor aquele singular estado de sono acordado e vigília dormente. Tentou repetir a mesma condição noutras pessoas, usando o magnetismo e a sugestão verbal. Teve êxito.

Procurou dar ordens pós-hipnóticas, isto é, sugerir uma dada tarefa para o paciente cumprir depois de acordado. Foi bem sucedido. O sujeito cumpria à risca a ordem dada durante o sono, após haver retornado ao estado de vigília. As sugestões dadas em estado de hipnose eram mais actuantes e, por este método, também se obtinham as curas. Foi assim que Victor, o jovem pastor doente, ao acordar, se viu livre dos seus sintomas. Estava curado.

Naturalmente, Mesmer e outros magnetizadores já haviam observado o transe sonambúlico, semelhante ao obtido por Puységur. Mas não lhe prestaram a devida atenção. Mais ainda, ele observou que, numa ocasião, Victor Race, ao ser levado ao estado hipnótico, mostrou-se possuidor de impressionantes faculdades paranormais: via à distância e, com os olhos fechados, obedecia às ordens mentais de Puységur (telepatia) e falava com uma linguagem acima das suas possibilidades culturais.

PUYSÉGUR HAVIA DESCOBERTO O HIPNOTISMO!
O marquês comunicou a sua descoberta à Academia de Medicina, chamando a atenção dos cientistas para a nova forma de curar através do sono induzido magnético. A Academia de Medicina mostrou-se interessada na questão e nomeou comissões para estudarem os casos. Uns relatórios foram a favor e outros contra, sem haver uma opinião unânime. Finalmente, em 1837, instituiu-se um prémio para se dirimirem as dúvidas. Mas, ao contrário do que se esperava, a prova não envolvia qualquer demonstração de cura pela hipnose. Ofereciam-se 3000 francos ao hipnotizador que apresentasse um sonâmbulo capaz de enxergar através de obstáculos opacos!

Jamais qualquer paciente passaria numa prova destas. Basta que se cite o exemplo da filha do dr. Pigaire, cuja clarividência havia sido atestada por Arago. A garota, de 12 anos apenas, cujos olhos foram totalmente vendados pelos experimentadores, mostrou que podia ver perfeitamente os objectos, mesmo nestas condições. Pois bem, o veredicto dos doutos académicos foi contrário. Chegaram à conclusão de que embora rigorosamente blindados os seus olhos, a sua faculdade da visão não podia ser descartada por ter ela uma vista fisiológica normal; não era cega, logo...

E A QUESTÃO DO HIPNOTISMO FOI ARQUIVADA PELA ACADEMIA (1).
A catalepsia
A catalepsia é um estado que envolve a súbita suspensão da sensação e da volição, bem como a paragem parcial das funções vitais. Ocorre, ao mesmo tempo, uma modificação no corpo do paciente. Este torna-se rígido e a sua aparência pode ser confundida com a de uma pessoa morta. Na maioria das vezes, o indivíduo fica inconsciente durante o transe cataléptico. Noutras ocasiões, o paciente manifesta intensa excitação mental, por acções e palavras aparentemente voluntárias. O ataque cataléptico tem duração variável, indo de alguns minutos a vários dias. Ele pode repetir-se por qualquer motivo insignificante, se não houver resistência por parte do paciente.

Perturbações do sistema nervoso, geralmente provocadas por emoções fortes e prolongadas, um susto ou um medo violento chegam a produzir o estado cataléptico. Alguns pequenos animais podem ser postos em catalepsia, por meio de manobras físicas.

Em 1787, o dr. Jacques Henri Désiré Petétin (1744-1808), de Lyon, descobriu como levar um paciente hipnotizado ao transe cataléptico. Em sua obra, Electricité Animal (1808), ele comunica ter observado, nas suas experiências com a catalepsia, pacientes a manifestarem impressionantes faculdades paranormais. Entre os fenómenos estranhos observados, assinala-se a transposição dos sentidos. Alguns pacientes em estado cataléptico pareciam surdos quando a voz era dirigida aos seus ouvidos. Entretanto, ouviam perfeitamente bem se as palavras lhes eram sussurradas ao nível do estômago. O mesmo facto ocorria com relação à visão. O sujeito mostrava-se capaz de «ver» com a região correspondente ao estômago, o mesmo ocorrendo com os outros sentidos, os quais pareciam transpostos para aquela região. Outras vezes os sentidos sofriam uma transposição diferente, para a ponta dos dedos da mão ou dos pés, por exemplo (2).

O hipnotismo em suas variadas fases é capaz de fazer sobressair algumas faculdades paranormais, porque ele enseja a emersão do inconsciente do paciente, facilitando um relacionamento entre aquele e o consciente do hipnotizador. Este último, tendo acesso ao inconsciente do paciente, pode despertar-lhe a função psi, levando-o a manifestar as suas faculdades paranormais. No estado de sono hipnótico, o indivíduo torna-se altamente sugestionável e obediente às ordens do hipnotizador.

Esta sugestionabilidade talvez explique boa parte das curas pelo magnetismo. A grande maioria das doenças possivelmente são de origem psíquica. A hipnose, facilitando o acesso às câmaras mais profundas da mente, poderá exercer uma acção bloqueadora ou libertadora dos seus conteúdos. Os magnetizadores depressa perceberam este facto e passaram a usar a sugestão hipnótica como poderosa arma contra as doenças psicossomáticas ou somatoformes.

CIRURGIAS SEM DOR SOB HIPNOSE
Um dos fenómenos de sugestão obtidos com a hipnose é o da supressão da dor e o da anestesia sem emprego de drogas. É conhecido da maioria dos leitores que se usa hipnose na odontologia, em substituição dos métodos de anestesia química.

Na segunda metade do ano de 1800 houve uma grande difusão do hipnotismo mesmérico. John Elliotson (1791-1868) fundou em 1846, em Londres, um hospital onde se empregavam as práticas mesméricas. Surgiram, logo mais, outras instituições semelhantes, em Edimburgo, Dublin e Exeter. «Nesta última cidade, Parker realizou mais de 200 intervenções cirúrgicas sem dor, dentre 1200 mesmerizados»(3).

Mas o mais impressionante é o episódio de James Esdaile (1808-1859). Vamos tomar todos os detalhes acerca de Esdaile, da excelente obra do dr. Osmard Andrade Faria, que acabámos de citar: Hipnose Médica e Odontológica.

Esdaile nasceu em Perth, na Escócia. Formou-se em medicina em 1830 e foi exercer clínica na Índia. Informado a respeito dos trabalhos de Elliotson, procurou aplicar os princípios do mesmerismo em um hindu portador de dupla hidrocele, em 4 de Abril de 1845, no Native Hospital de Hooghly. Apesar dos seus sofrimentos, o paciente caiu em sono profundo e pôde ser operado sem anestesia. Logo mais, Esdaile iria contar com 75 intervenções cirúrgicas feitas sob hipnose.

Ao completar 100 cirurgias, Esdaile enviou uma comunicação ao governador de Bengala, sir Herbert Makkock, solicitando-lhe apoio oficial para o desenvolvimento das suas pesquisas. Um conselho médico de investigações nomeado pelo governador aprovou a solicitação de Esdaile. Da comunicação que F. J. Halliday, secretário do Governo de Bengala e presidente do Conselho, dirigiu a Esdaile, destacamos o seguinte trecho:

“Considerando, porém, a possibilidade de se realizarem as mais sérias intervenções cirúrgicas sem dor e sofrimento para os pacientes, é opinião de S. Exª, baseado no testemunho visual da comissão relatora que as investigações merecem ser facilitadas, permitindo-lhe prosseguir nas suas interessantes experiências, sob as mais favoráveis e promissoras circunstâncias” (obra citada, pág.15).

Diante do parecer da comissão e da atitude favorável do governador de Bengala, em Novembro de 1846 foi posto à disposição de Esdaile, em Calcutá, um pequeno hospital. Constituiu-se um grupo fiscal composto por médicos indicados pelo Governo para acompanhar os trabalhos. Estes testemunharam “as mais variadas intervenções cirúrgicas sem o menor sofrimento para o paciente, redução do choque cirúrgico e do trauma doloroso pós-operatório” (obra citada, pág.18).

Em Julho de 1847, Esdaile apresentou um relatório de suas actividades, enquanto a comissão de médicos nomeada pelo Governo lhe comunicava os excelentes resultados observados. Eis um trecho do relatório de Esdaile, e que teve o apoio da comissão: «Durante alguns meses estivemos ocupados quase exclusivamente com a cirurgia, o sucesso das operações indolores praticamente eclipsando os resultados menos espectaculosos da orla clínica. Esses, porém, tornam-se agora progressivamente conhecidos pelo público e sucessos médicos estão já a ser obtidos de forma encorajadora, bem como outros casos de natureza mais grave como epilepsia, demência, paralisia e outras afecções nervosas, dolorosas, prometem compensar o nosso labor.

«Tais casos, porém, por antigos e inveterados, requerem logo tratamento para marcar alguma resposta e deixar-nos certezas dos resultados.

«Os casos cirúrgicos, por razões bem conhecidas de V. Exª, são quase todos similares (remoção de enormes tumores de elefantíase), mas, felizmente, para demonstração do poder calmante e narcótico do mesmerismo, as intervenções têm sido as mais severas e perigosas que se podem realizar no corpo humano.

«Uma maior variedade de casos médicos e cirúrgicos é, no entanto, desejável e poderá ser facilmente conseguida nos hospitais públicos de Calcutá. Será no campo dos grandes hospitais, com a sua variedade de pacientes e incidentes, que a utilidade do mesmerismo poderá ser melhor e mais rapidamente ilustrada...

«Em conclusão, desejo pedir a atenção do Governador para as estatísticas concernentes ao assunto, ponto de máximo interesse para estabelecer a proporção de mortalidade nas velhas e novas escolas cirúrgicas.

«A esse propósito tenho a honra de juntar uma relação de todas as intervenções mesméricas realizadas por mim totalizando 133, e espero do Governador os necessários elementos de comparação com os resultados obtidos nos diferentes hospitais de Calcutá» (obra citada, pp. 16 e 17).

Tendo-se findado o prazo concedido a Esdaile e por este assumido, o pequeno hospital de Calcutá foi desactivado. Apesar dos movimentos populares solicitando a reabertura do referido hospital, as autoridades mantiveram-se irredutíveis. Entretanto, a própria população quotizou-se para manter as despesas e foi fundado um novo serviço hospitalar para a prática do mesmerismo, sendo ele entregue à direcção de Esdaile, em Setembro de 1848. Posteriormente, o próprio Governo indiano ofereceu a Esdaile a transferência de seus serviços para o Sarkeas’s Lane Hospital and Dispensary.

Por questões de saúde, Esdaile ausentou-se da Índia, deixando em seu lugar o prof. Webb. «Durante o período em que praticou o mesmerismo na Índia, realizou Esdaile para mais de 3000 intervenções sob hipnose, das quais 300 de cirurgia maior» (obra citada, pág. 17).

Seria interessante lembrar, aqui, que naquela época (1845) não se conheciam ainda os antibióticos. Outro ponto importante a ser destacado é que Esdaile praticava as intervenções cirúrgicas, em seu estado normal, sem nenhuma manifestação mediúnica perceptível por parte dos que o rodeavam. Ele era escocês e, em 1845, na Índia, onde ele se encontrava, não se conhecia o espiritismo. Lembramos que o Le Premier Livre des Espirits, de Allan Kardec, foi publicado em 18 de Abril de 1857, portanto 12 anos após Esdaile haver feito a sua primeira intervenção cirúrgica sem anestesia, em 4 de Abril de 1845.

O HIPNOTISMO CIENTÍFICO
Em 1823, um jovem médico de Paris, Alexandre Bertrand (1795-1831), publicou um livro, Traité du Somnambulisme. Três anos mais tarde, ele lançou um segundo trabalho, Du Magnétisme Animal en France. Foi Bertrand quem descobriu o papel importante da sugestão nos fenómenos atribuídos ao magnetismo animal. Ele observara a conexão entre o sono magnético, o êxtase colectivo e o sonambulismo e chegara à conclusão de que as curas e demais sintomas, antes atribuídos ao magnetismo animal, à electricidade animal e quejandos, não passavam de meras sugestões de magnetizador agindo sobre a imaginação de um paciente cuja sugestionabilidade foi altamente aumentada.

Se Bertrand tivesse vivido durante mais tempo – ele morreu aos 36 anos de idade – talvez houvesse antecipado a aceitação científica do transe induzido.

Outro personagem que merece ser citado neste particular é o abade José Custódio de Faria (1756-1819), nascido em Condolin de Bardez, na Índia Portuguesa. Inicialmente praticou o mesmerismo, mas posteriormente concluiu que o paciente era conduzido ao que ele chamava de sonho lúcido, por sua própria vontade e pelo poder da sugestão. Expressou as suas ideias num livro: De la Cause du Sommeil Lucide ou l’Etude Sur la Nature de l’Homme, Paris, 1819, t.I, (único).

Embora tivesse despertado interesse e suscitado admiradores como Liébeault, Custódio de Faria não logrou projecção duradoura. O mesmerismo continuou a fazer adeptos e a manter-se como a hipótese mais aceitável.

Coube a James Braid (1795-1860), um cirurgião de Manchester, nascido em Rylaw House, Fifeshire, conduzir o hipnotismo ao ponto de aceitação académica. «A ele deve a hipnose a sua primeira conceituação realmente científica e filosófica, despida de empirismos e ideias absurdas. A Braid devemos por outro lado a actual terminologia empregada para descrever os fenómenos de inibição cortical». (4)

Na sua sessão mesmérica, conduzida pelo francês Charles Lafontaine, Braid notou que o paciente magnetizado se mostrava incapaz de abrir os olhos. Para Braid, as pálpebras do paciente achavam-se fatigadas.

«Tal incidente alertou a curiosidade de Braid. Pareceu-lhe inicialmente que estava ali a causa do fenómeno. Ou, se não era aquele exactamente o ponto capital, de qualquer maneira a exaustão palpebral e a catalepsia observadas deveriam ter qualquer participação no desencadeamento do transe mesmérico». (5)

Retornando à sua casa, Braid tentou algumas experiências para testar a sua hipótese de trabalho. Os seus primeiros pacientes foram a sua própria esposa, um criado e um amigo. Fê-los fitarem fixamente um objecto brilhante até cansarem a vista a ponto de não poderem manter abertas as pálpebras. A partir daí conseguiu hipnotizá-los facilmente.

James Braid chegou, independentemente, às mesmas conclusões a que Alexandre Bertrand havia chegado há cerca de 18 anos: o fenómeno do mesmerismo não implicava na existência de qualquer influência planetária, «fluido magnético animal» ou qualquer poder estranho do magnetizador. Em suma, o transe não era induzido senão pela sugestão aliada a uma estimulação continuada capaz de produzir alterações nos órgãos dos sentidos, levando-os para certo grau de exaustão. Por conseguinte, o estado de sono mesmérico diferenciava-se do sono fisiológico.

Braid publicou, em 1843, um livro intitulado: Neurohypnology or the Rationale of Nervous Sleep. Nesta obra, ele lançou os primeiros termos da nomenclatura agora usada em nossos dias: sono neuro-hipnológico, hipnologia (abreviatura de neuro-hipnologia), hipnotismo, hipnótico, hipnose, etc..

Com Braid, iniciou-se, pois, a fase científica do hipnotismo, candidatando-se o mesmo a ser um novo ramo da fisiologia. Embora ainda não se tivesse uma explicação definitiva acerca do seu mecanismo, acreditava-se, pelo menos, que o hipnotismo parecia decorrer de causas naturais fisiológicas, por-tanto susceptível de uma abordagem estritamente científica. Doravante as discussões iriam versar sobre-tudo em torno do mecanismo de produção dos fenómenos da hipnose. Nesta disputa destacar-se-iam três grandes nomes: Ambroise Auguste Liébeault, Henri Bernheim e Jean-Martin Charcot.

A SUGESTÃO
Ambroise Auguste Liébeault procurou investigar o problema do hipnotismo observando-o nos seus próprios clientes. Suas pesquisas prolongaram-se por mais de 20 anos. Publicou um livro sobre a hipnose: Du Sommeil et des États Analougues, Considerés au Point de Vue de l’Action.

A ideia central de Liébeault, sobre o mecanismo da hipnose é a sugestão.

Henri Bernheim não aceitava o hipnotismo e nem votava qualquer admiração por Liébeault. Entretanto, um simples acidente fê-los amigos. Bernheim tratara, durante cerca de seis anos, e sem resultados, um cliente que sofria de ciática. O referido doente, aconselhado por outras pessoas, procurou Liébeault. Em curtíssimo prazo o paciente voltou a Bernheim, inteiramente livre de seu mal. Este facto despertou a curiosidade de Bernheim, o qual procurou Liébeault para conhecer os seus métodos de cura. Tornou-se, assim, discípulo e amigo inseparável do mesmo.

De 1822 a 1884, Bernheim fez intensas investigações, enfeixando suas experiências em um primeiro livro: De la Suggestion. Em 1886 completou-o, lançando um segundo tomo: La Therapéutique Suggestive. As suas duas obras tiveram amplo sucesso e provocaram grande afluência de médicos à cidade de Nancy, onde Bernheim tinha a sua clínica.

Vamos transcrever, do trabalho do Dr. Osmard A. Faria um trecho importante, concernente às ideias expostas nas obras de Bernheim e Liébeault: «Em tais livros, como no de Liébeault, o tema central é o efeito da sugestão, melhor, da hetero-sugestão, na obtenção de resultados terapêuticos». Assim agiria o hipnotismo de Braid. E que se teria por sugestão no entender desses autores?

Explica a escola de Nancy: Sugestão é o acto pelo qual se faz aceitar pelo cérebro de outrem uma ideia qualquer. (Obra citada, pág. 23).

Comentando as ideias de Alexandre Bertrand, de Liébeault e de Bernheim, o Dr. Osmard A. Faria observa que obviamente «é fácil implantar uma ideia no cérebro do hipnotizado, que lhe podemos dar sugestões úteis, que fará aquilo que insinuarmos. Mas a dúvida principal mantinha-se irrespondida (...).» (Obra citada, p.24). Esta dúvida resume-se em como funciona o cérebro durante o processo da hipnose.

Não é apenas esta questão que o ilustre e competente hipnólogo, Dr. Osmard A. Faria, formula em seu esplêndido livro. Outras mais e muito oportunas são colocadas por ele, mostrando que a questão do mecanismo da hipnose havia apenas sido iniciada por aqueles cientistas.

O terceiro hipnólogo que apresentou uma hipótese de trabalho para explicar o mecanismo da hipnose foi Jean-Martin Charcot (1825-1892), do famoso hospital da Salpêtriére, em Paris.

Renomado neurologista, em 1862 tornou-se chefe de serviço naquele hospital, passando a leccionar, ali, em 1868, Moléstia do Sistema Nervoso. Em 1870 encarregou-se dos histéricos não alienados. Em 1878, Charcot iniciou suas investigações sobre a histeria e o hipnotismo. Breve a chamada escola da Salpêtriére se tornou mundialmente famosa. Foi aí que Alfred Binet, Pierre Janet e Sigmund Freud travaram contacto com as manifestações do inconsciente.

Apesar de todo o peso de seus títulos e da fama da escola da Salpêtriére, as ideias de Charcot, acerca da estreita e exclusiva relação entre a histeria e o fenómeno do hipnotismo, mostraram-se inconsistentes com os factos. Restou, assim, como a mais correcta, a hipótese de Henri Bernheim, da escola de Nancy.

Veremos, mais tarde, no decorrer desta série de artigos, que as ideias de Mesmer não foram de todo descartadas, e que as mais recentes hipóteses da psicotrónica parecem dar-lhes certo apoio.
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*(Zweig, S. – A cura pelo Espírito, Rio de Janeiro: Guanabara, 1940, p.112). (1) - Fodor, N. - Encyclopaedia of Psychic Science, USA; University Books, 1974, p. 45. (2) Spence, L. An Encyclopaedia of Occultism, Secaucus, New Jersey; The Citadel Press, 1974, pp.95 e 388. (3) Faria, O. A. - Manual de Hipnose Médica e Odontológica, Rio de Janeiro e São Paulo; Atheneu, 1979, p. 14. (4) Faria, O. A. - Hipnose Médica e Odontológica, Rio de Janeiro - São Paulo; Atheneu, 1979, p. 19). (5) Faria, O. A. - Opus cit. P. 19).